Podemos começar a cantar a musica dos anos 80 mundialmente conhecida, um hino do mundo rock/pop – “We are the world, we are the children.....”
Unicef in-loco
( com lista de pedidos)
Antes de vir com a minha bagagem toda para Angola ( fisica e espiritual) o Nando frisou várias vezes que eu teria de “empedrar” o meu coração e fechar os olhos em meu redor.
Foi uma tentativa carinhosa e por Amor, pois quando não o fazemos o nosso coração sofre muito e chega mesmo a sangrar.
Temos alguma ideia do sofrimento que este povo passa, sabemos das condições “muito pouco humanas” em que vivem nesses musseques, mas tudo isto piora quando se trata de crianças.
E além de sermos humanos –somos pais! Penso nas minhas filhas, no que têm, na birra que fazem por um biberon de leite......
Acho que já vos tinha falado das bolachinhas e yogurtes que vou tendo no carro e que vou oferecendo durante o meu dia à medida que vou passando por eles.
Os miudos aparecem sempre com mão na barriga, mão estendida, mão de fome. Um pano feito de um amaranhado de fios meio irreconhecivel e dizem “ tia deixa só tirar o pó” e eu digo sempre “ assim está muito bem – não”, ou então “ deixa só tomar conta” ao que respondo sempre “ o carro não foge”. São milhentas maneiras que os pequeninos têm de tentar ganhar uns 50 centimos ( 50kz). Em vez disso dou-lhes bolachas, sumos, yogurtes, o que tiver.
Eles pedem “ tem água de beber?” Mesmo se tiver uma garrafa de água quase vazia, até isso vale, aqui mesmo as garrafas de plástico vazias são preciosas porque eles não têm como juntar água....
Mas isso não chega. Há sempre mais crianças, e todas elas passam muita fome, sede, sem condições nenhumas. Muitas dá aspecto de viverem ali mesmo na rua. Não têm água durante dias, e a refeição delas pode mesmo ser as 4 bolachas que lhes dou.
Uma vez numa visita “esclarecedora” que fizemos a um musseque, mesmo ao interior, demos com um montão de miudos a escorregarem com carrinhos de rolamentos, corridas girissimas que o Nando filmou.
No final deu-me pena e como tinha a lancheira das miudas comigo com muitas bolachas e sumos, disse ao Nando - dá aos miudos! E foi a asneira, demos a uns quantos para dividirem. Claro que foi o “moche” total e desataram todos à pancada em luta pela comida. Até fiquei mal disposta.
Resultado: agora quando fazemos isso a primeira coisa que dizemos é : todos em fila! E depois é como na escolinha, um pouco para cada um.
Depois da festa da Gabi sobrou imensa comida, como em todas as festas.
Planeei uma festa Luso-Angolana com comidas tipicamente angolanas e outras coisas que são normais das festas portuguesas , como sandes, gelatinas, mousse de chocolate.
Mas também teve muitos sambapito ( chupas), bolinhos “charutos” muita gasosa ( coca cola) e sumos.
O que mais sobrou foram as bolachas, sumos meio abertos, e muitas sandes e rebuçados. Guardei tudo no frigorifico e no dia seguinte juntei num grande saco. A caminho da praia Baía Azul há um grupo de miudos a pedir junto a uma ponte caída da guerra. Paramos aí e foi uma sandes para cada um mais uma grande garrafa de 1,5lt cheia de sumo, mais bolachas e outras coisitas. Na praia ainda sobrou para os miudos locais, uma sandes para cada e ainda uns quantos doces.
Tenho a certeza que a minha filha nunca terá imaginado tanta criança tão feliz pelo aniversário dela!
Isto foi o fim-de-semana passado.
Hoje no regresso da praia o mesmo grupo de miudos junto à ponte acenou, paramos a dar mais umas bolachas, e eles mais uma vez agradeceram e desta vez pediram – “cadernos, precisamos de cadernos”
E nós respondemos logo – “no próximo fim-de-semana!”
Assim será.
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